Dilma Rousseff enfrenta os desequilíbrios do Brasil

O Diretor-Presidente do Crédito y Caución do Brasil aborda neste artigo de opinão, publicado pelo jornal Vida Económica, os desafios enfrentados pela economia brasileira.

Madrid - 12-dez-2014

Dilma Rousseff enfrenta os desequilibrios do Brasil

Daniel Nobre, Diretor-Presidente da Crédito y Caución no Brasil

Após a reeleição de Dilma Rousseff como Presidente, nós, os brasileiros, esperamos um período pós-eleitoral de ajustamento dos desequilíbrios gerados pelo esgotamento do nosso modelo de crescimento na última década. O crescimento do PIB no Brasil viu-se impulsionado pela expansão do consumo, cujos principais pilares foram o aumento do emprego e do crédito, apoiados por um contexto internacional favorável para os mercados emergentes exportadores de produtos básicos. Porém, os investimentos na capacidade produtiva não acompanharam este crescimento devido a fatores como a taxa de câmbio ou a carga fiscal, que prejudicaram a competitividade, ou as dificuldades para definir um quadro legal de colaboração entre os setores público e privado para realizar investimentos em infraestruturas.

A crise mundial trouxe um cenário de maior aversão ao risco, escassez de crédito, maiores dificuldades para investimentos a longo-prazo, e pressão competitiva para a indústria brasileira. Perante este ambiente externo, com a finalidade de manter a trajetória de crescimento e pleno emprego, a Administração modificou a orientação das suas políticas, adotando medidas fiscais e monetárias para estimular a procura. Estas políticas deram lugar a uma queda das receitas fiscais, a uma inflação acima do objetivo e a um agravamento da balança comercial, devido ao aumento das importações. Este ambiente provocou a perda de confiança dos agentes económicos, reduzindo os investimentos, o consumo, o crédito e o crescimento. Como resultado, em 2014 o país crescerá abaixo do seu potencial pelo quarto ano consecutivo no meio de desequilíbrios macroeconómicos crescentes.

No entanto, estamos longe do risco sistemático ou da incapacidade da Administração para lidar com esta situação: a dívida pública líquida continua a ser considerada baixa [35% do PIB], as reservas de câmbio permanecem estáveis [370.000 milhões de dólares americanos, cerca de 40 meses de importações] e a dívida externa líquida é negativa [2% do PIB]. O problema, por conseguinte, é a tendência baseada na atuação recente, contudo reversível dentro dos instrumentos adequados de política monetária e fiscal.

Nesta nova etapa coletiva que empreendemos será inadiável transformar este quadro, tendo como finalidade recuperar a confiança geral sobre as perspetivas de desempenho económico do país. Em 2015, as medidas de contenção fiscal e monetária teriam que gerar um abrandamento ainda maior do crescimento, mas com melhores resultados no que se refere ao plano fiscal, de preços e exterior. O investimento reagirá quando o setor privado recuperar a confiança na eficácia destas medidas, e só crescerá de forma sustentada, se o novo Governo mostrar sinais concretos de que irá avançar com reformas estruturais, sendo a fiscal a mais esperada e necessária para este fim.

No que se refere aos riscos que as organizações portuguesas que operam no Brasil enfrentam, destaco os que se relacionam com os fatores a curto prazo, visto que os ajustes fiscais e monetários imediatos para redirecionar a economia à sua trajetória de crescimento podem gerar um cenário de baixa atividade económica em 2015. Tendo em conta as oportunidades, pode ser um bom momento para se posicionar na retoma de crescimento futuro, já que os investimentos normalmente se decidem considerando as perspetivas a longo prazo.

E enquanto as oportunidades se abrem para as empresas portuguesas, espera-se que o grande motor de crescimento económico no país seja o investimento, depois de um certo esgotamento do modelo adotado durante a última década, onde o consumo foi o eixo do resultado económico. Apesar dos avanços, o Brasil ainda sofre fortes insuficiências na educação e em infraestruturas, como na energia, nos transportes, no saneamento básico, na mobilidade urbana e na logística. Os investimentos nestes setores são fundamentais para aumentar a capacidade produtiva através de ganhos de produtividade, essenciais para a melhoria da competitividade da economia brasileira. Por outro lado, a pouca margem fiscal para os investimentos nestes setores abrirá grandes oportunidades ao capital privado. Por conseguinte, os setores relacionados com a educação e a infraestrutura beneficiarão significativamente.

Também há que ter em conta a conjugação que se produz de baixo crescimento, inflação alta e escassez de crédito que gera impactos significativos no ambiente de incumprimento empresarial, uma vez que afeta negativamente o `cash flow´ e a rentabilidade das empresas, dificultando o cumprimento dos seus compromissos financeiros. A frustração das expectativas de crescimento prejudica especialmente as empresas que investiram no aumento da sua capacidade produtiva, que adotaram estratégias financeiras baseadas num crescimento do nível de procura e das suas expectativas de geração de caixa. O crédito no geral é muito sensível à superação ou frustração destas expectativas assumindo um carácter pró-cíclico que realça, ampliando ou diminuindo ainda mais, o impacto da procura na atividade económica. O baixo crescimento, consequentemente, tende a diminuir também o crédito e a liquidez em geral, aumentando as dificuldades para as empresas não só na aquisição de novos recursos, como também no adiamento de dívidas existentes. Por último, a elevada inflação prejudica principalmente as empresas expostas à concorrência externa.

Esperamos que o nível de incumprimento aumente devido à persistência da combinação de baixo crescimento, inflação alta e escassez de crédito em geral que dominou a nossa conjuntura nos últimos anos. Neste ambiente é indispensável que as empresas protejam as suas vendas mediante seguros de crédito, valorizando tanto a cobertura oferecida quando se aprova um limiar de risco a um comprador, como a informação incluída numa decisão restritiva de cobertura.

Em síntese, há razões para o otimismo, mas com cautela. Para dizer a verdade, o otimismo é uma característica muito acentuada que nos ajudou, aos brasileiros, a resistir e a superar as dificuldades históricas muito mais graves do que as atuais.

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